Lado bom do apocalipse

Pensando.

A grande mídia ainda está abafando o caso da técnica de enfermagem que teve traumatismo craniano após ter sido espancada numa estação de trem em São Paulo. Ao menos tiveram a decência de fazer uma notinha de rodapé em relação aos casos de profissionais da saúde sendo hostilizados. É simplesmente um absurdo. A população brasileira é o opróbrio da humanidade.

São pessoas que confundem processo com substância e acreditam que o profissional que está no hospital simplesmente brotou lá. Não olham para o trabalhador que sai de casa todos os dias para atender um bando de gente mesquinha e ingrata. O mesmo povo que curte o carnaval em época de epidêmia fica com medo dos profissionais da saúde nos transportes públicos e os espanca. A postura do presidente Jair Bolsonaro é de envergonhar até mesmo áqueles que o elegeram:

Eu assumo que no meu artigo sobre a perspectiva teatral do coronavírus eu fui parcial e olhei apenas para o embuste da grande mídia. Porcos como são é difícil de levar a sério quem nunca fez um trabalho decente, através da seleção parcial dde conteúdo e toda forma de lavagem cerebral. Também não previ que as perspectivas seriam tão tenebrosas para o holocausto que esta por vir, já que a cura está prevista apenas para o próximo ano.

A população ou está em pânico, ou simplesmente está tocando o foda-se para qualquer ato de prudência. Não conseguem agir normalmente e precisam fazer merda. É muito simples: a grande mídia perdeu o crédito ao longo dos anos de modo que o povo enxerga tudo como teatro, maquinação e embuste, ainda que inconscientemente. Os homens que já desacreditaram dela por completo, no entanto, contrariam tudo o que é pregado por quem tem fama de mentiroso.

Como consequência, a população fica dividida entre os rebeldes, que vão quebrar regras para mostrar que é só uma gripinha, os descontrolados que entram em pânico e só fazem cagada enquanto os mais sensatos vão tocar a vida normalmente – mas com cautela, repito, com cautela – pois sabem que depois de toda tempestade aparece um arco-íris.

Estou me desculpando por meu resumo para brasileiros pois de certa forma, ainda que meu alcance seja muito pequeno, eu fui um dos hipócritas que pregou a imprudência. Mas eu não estava completamente errado no que diz respeito a um dos fatores que espalham o vírus: as vírtudes e o planejamento das cidades. Centros urbanos super movimentados, na minha cidade, por exemplo, há ratos e mendigos num chão que fede pra caralho, perto das estações de trem (tornando o coronavírus brincadeira de criança perto das doenças que têm nesses lugares). Logo, o que vêm depois desse “imprevisto”? Vamos continuar repetindo os mesmos erros?

No meu estilo de vida, eu sempre mantive distância das pessoas estranhas. Na calçada eu preciso de 5 metros entre cada pessoa – de preferência 10. Odeio transporte público e como não preciso ficar saindo da cidade, ou vou andando ou pedalando para não gerar poluição. Não cago fora de casa e sou cuidadoso com a higiene pessoal. Em suma, ao longo da minha vida eu vou buscando maneiras de depender cada vez menos do sistema. Espero ter condições de me isolar por completo da civilização – claro, aproveitando dos confortos que ela dispõe, do contrário eu já estaria morando com os índios – e o cenário atual mostra que deve-se fazer isso.

Vou focar minhas idéias no pós corona. Até porque se eu me infectar não terei futuro algum. Morrer? Todos nós vamos. Ver meus inimigos morrendo? Será bom. Perder pessoas queridas? Morreremos juntos. Mas por hora, é necessário viver o momento presente. Os recursos que me forem apresentados para curtir a solidão e isolamento serão bem aproveitados. Violino, estradas e ruas desertas para pedalar, treinos com o peso do corpo e meditação sobre artes marciais. Livros, contato com os loucos da família (alguns eu espero que tenham o CPF cancelado por conta do coronavírus). E o mais legal de tudo: ver os mesmos idiotas que agrediram enfermeiras nos vagões de trem implorando para serem atendidos por uma.

Eu ficaria muito feliz de ver os filhos da puta que quebraram o crânio de uma pobre técnica em enfermagem agonizando com o pulmão prestes a explodir. Eles cospem nas pessoas que vão cuidar deles. Povo nojento, eu simplesmente perdi qualquer sentimento de empatia por pessoas asssim. Sinto ao mesmo tempo alegria e desgosto. Desgosto por ver que sou miserável ao ponto de ter o mesmo destino das pessoas que eu desprezo e odeio. Reconheço que sou humano como qualquer outro e que minha vida não vale mais que a do próximo, mas é revoltante que pessoas esforçadas estejam no mesmo patamar de vagabundos inúteis que precisam parasitar a sociedade. É até bom para a vírtude a humildade. Mas por outro lado, como sou alguém que acha flores no deserto, encontrei a alegria de saber que, ao menos, verei muitos inimigos indo para a cova.

Youjo 2