É humano chorar com 'Através do Espelho'

Na primeira vez que li esse livro, senti um leve nó na cabeça, como se algo tivesse me despertado. Foi uma surpresa. E não há nada mais gostoso numa leitura do que sentir o prazer da surpresa de uma narrativa. Você simplesmente não espera que tal ação vá acontecer. E quando acontece: algo te acorda, desperta, sorri para você e a sua reação é ficar atônito.

Cecilia Skotbu me marcou. Ela representa, talvez, todos nós, cuja necessidade de sonhar é inerente a persona que você carrega.

Ela está doente. A família tem noção da gravidade de sua doença, mas Cecilia não sabe. Ela dorme e acorda achando que está apenas acamada com algo que logo será curado. O livro se passa durante os festejos de Natal. E não foi por acaso que Gaarder escolheu justamente este tema: é a época cujas famílias se reúnem, fazem suas refeições juntas, trocam presentes e afetos. Atitudes estas que não são recorrentes nos outros dias do ano. A família cuida de Cecilia como quem cuida de uma pessoa bem idosa, quase à beira da morte. A maioria das necessidades dela são atendidas.

Daí, em meio ao sono e a dor de sua doença, ela conhece um anjo. Ele passa, então, a guiá-la todos os dias, acompanhando-a em cada passo, em cada dia. Ele explica que não é um ser humano, e sim um ser iluminado por Deus, cuja missão é cuidar dela até… enfim. Cecilia então passa a “viajar” com o anjo, conversa com ele todos os dias, escreve num diário o que aprendeu. Todas as noites, ele faz companhia a Cecilia, e ensina muita coisa sobre a Terra, o sol, as pessoas, as atitudes, os homens e o mundo. Ele até tenta explicar quem ele é de verdade, demonstrando que consegue ultrapassar paredes, estar em vários lugares ao mesmo tempo com a força do pensamento. Mas ele lamenta, por exemplo, não conseguir sentir o gosto das coisas assim como os humanos sentem. E ele explica isso a Cecilia da forma mais “doce” possível.

As coisas que vai aprendendo ela anota num caderninho. Ali ela escreveu, por exemplo:

Nós enxergamos tudo num espelho, obscuramente. Às vezes conseguimos espiar através do espelho e ter uma visão de como são as coisas do outro lado. Se conseguíssemos polir mais esse espelho, veríamos muito mais coisas. Porém não enxergaríamos mais a nós mesmos.

Nas coisas em que escrevo, não gosto de contar o final dos livros. A não ser que seja um livro bem clássico, cujo final é de conhecimento geral. Neste, prefiro que o leitor procure na livraria mais próxima, na loja virtual, peça emprestado, etc, e leia. É gostoso perceber o quão envolve e filosófico o livro é e o quanto ele consegue nos deixar pensativos, tentando entender o sentido de tudo, o sentido das coisas e pessoas a sua volta. Posso dizer que você não vai se arrepender.